Confira o depoimento emocionante de uma moradora de um condomínio-clube, seus cuidados, medos, receios e a coragem para revelar sua identidade para a comunidade

(*) Por Giovanna **

Antes mesmo do decreto para fechamento das áreas comuns, eu mesma já havia planejado tudo para ficar em casa a partir do dia 20/3. Assim, dia 19 era o último para fazer o que precisava. Fui ao supermercado e à escola pegar os materiais das crianças. Cheguei em casa e pensei: “Pronto! O coronavírus ficou lá fora! Daqui ninguém mais sai! Estamos salvos!” 

Mas Deus tinha outros planos. Logo no primeiro dia de confinamento, acordei com forte dor de cabeça, tosse, fadiga geral e estava ofegante. Pensei que era estresse! Mas um sinal acendeu em mim ao ler a mensagem de uma amiga com a qual eu havia passado os últimos três dias em reuniões. Ela dizia que estava com febre, dor de cabeça e tosse!

Imediatamente avisei a síndica da minha suspeita de estar com a COVID-19 e coloquei máscara para ficar dentro de casa. Após três dias, eu estava pior, desesperada e com medo. Senti que deveria ir para o hospital.

Seguindo as orientações que a administração do condomínio havia nos encaminhado por meio de vídeos, manual de procedimento e circulares, lá fui eu de máscara e um pano embebido em álcool,  desinfetando todos os lugares por onde passava.

Mesmo passando o dia todo no hospital e com pedido médico, não consegui realizar o teste, pois só estavam liberados para casos mais graves.

Cuidados na circulação no condomínio e o resultado positivo para COVID-19

Então voltei para o condomínio, com falta de ar, usando máscara e o álcool, limpando e morrendo de medo de encontrar alguém que já viesse especular. Dois dias depois, com piora do quadro respiratório, fui para outro hospital com máscara e pano com álcool .

Fiz exames de sangue, teste do H1N1 e COVID-19, além da tomografia de tórax que acusou imagem compatível com pneumonia viral. Fiquei três dias internada, isolada e, por que não dizer, escondida! Se as pessoas soubessem que eu estava no hospital, logo iria começar o falatório.

Em um condomínio grande como o meu, com nove torres e eu sendo uma figurinha conhecida, estava certa de que em pouco tempo todos saberiam que eu estava internada, aguardando o resultado do teste e em recuperação.

Minha síndicaTaula Armentanosabia desde o dia da internação, pois a avisei para que pudesse se preparar para minha volta caso o teste fosse positivo. No dia da alta hospitalar, recebi o resultado do teste: positivo para COVID-19.

Síndica foi avisada para preparar o condomínio e os condôminos

Vieram mil coisas à cabeça, entre elas meus vizinhos de condomínio. Tive dúvidas se devia ou não me identificar para os moradores, pois tinha medo de as pessoas me excluírem, me julgarem, olharem torto para os meus filhos.

Mas prontamente comuniquei minha síndica que, com muita eficiência, organizou a equipe de segurança e deixou um plantonista da limpeza para fazer a desinfecção do elevador quando eu chegasse.

Taula então me comunicou que informaria aos condôminos quanto ao primeiro caso de Covid-19 confirmado em nosso condomínio.

Antes de divulgar a nota oficial e o vídeo já com orientações aos condôminos, minha síndica teve o cuidado de me encaminhar o material para que eu aprovasse. Houve respeito e carinho ao se preocupar até com a forma de comunicação.

No vídeo em que comunicava aos condôminos, pedia apoio, respeito e informou como tudo seria tratado daquele momento em diante com a unidade e os condôminos em geral.

Ver que já tinha uma programação pensada e estruturada para apoio à família e segurança dos condôminos para conter a propagação do vírus tranquilizou os moradores.

A especulação dos vizinhos para saber quem estava com COVID-19?

No entanto, com a tecnologia atual e o medo da doença altamente contagiosa, não demorou a começarem os comentários nos grupos de Facebook e WhatsApp. A partir dali, eu era a POSITIVA! Ninguém queria ver o infectado nem de longe!

"...eu não quero usar o mesmo elevador..."  "...já pensou se meus filhos cruzam com alguém daquela unidade?"  "...eu preciso saber se é da minha torre porque estou grávida e não posso correr riscos..." ".... Eu tenho câncer..."  "...Eu sou grupo de risco..."   "...a limpeza não vai limpar o elevador assim que a pessoa usar..." "...eu vi na TV que o condomínio tem que falar qual é a torre! Temos o direito de saber!"  

E por aí vai. As pessoas só “esquecem” que a POSITIVA é condômina também e que, portanto, fatalmente ela ou alguém de sua família irá ler as mensagens. E lá estava eu, lendo tudo. Ainda do hospital, pois minha alta demorou a sair.

E o comunicado já estava “bombando” no condomínio.

Tive vontade de não voltar mais para casa, pois me senti uma assassina em potencial rsssss  Ok, sentimento exagerado, mas o estado de vulnerabilidade era tão grande, que tudo parecia uma rejeição pessoal. Eu queria gritar pra todo mundo que havia já um sistema todo montado para a minha chegada.

Mesmo que a síndica já tivesse dito isso, e tivesse pedido acolhimento, algumas pessoas só perceberam o risco que estavam correndo com a chegada do infectado. No caso, eu.

Até um vídeo animado com as precauções para o condômino positivo que ficaria em reclusão, sua família em quarentena e como seria toda estrutura do condomínio, não foi suficiente para estas pessoas.

Também houve comentários de desejos de melhoras, oração e uma única oferta de ajuda de forma bem direta: "acredito que deveríamos saber quem é para poder ajudar!" Mas a maioria dos comentários eram de medo do contágio e de preservação de si.

Como citei acima, a alta demorou muito e cheguei 0h30  no condomínio. O plantonista da limpeza teve que ir embora e a síndica, que estava o tempo todo comigo ao telefone, solicitou à empresa de manutenção do elevador que orientasse o líder da segurança para desligar o elevador após meu uso. E assim foi feito.

O elevador só foi liberado após a desinfecção especial realizada pela equipe de limpeza, a qual utilizava todos os equipamentos de proteção necessários.

Nessa hora faz muita diferença a postura de uma síndica realmente humana, que me acolheu, me consolou, falou comigo no telefone pedindo que eu não chorasse, pois não permitiria que ninguém me julgasse e que eu tivesse calma, pois estava cuidando de tudo e ninguém correria riscos.

Obrigada, minha síndica, por ser um porto seguro naquela hora. Mesmo já em casa, eu estava triste e totalmente sozinha e isolada.

"Conto ou não conto para os vizinhos que estou com COVID-19?"

Todos queriam saber qual era a torre do morador infectado para aumentar os cuidados! "...vamos falar com a síndica! Ela tem que dizer qual é a torre!"

Eu mesma fui no grupo de WhatsApp do condomínio e me identifiquei. Contei toda a história e todo o plano de contingência executado pelo condomínio!

O plano consiste em:

  • retirada do lixo na minha porta por pessoas utilizando EPI’s
  • orientação de bloqueio de visitantes e prestadores de serviço à unidade
  • ajuda com o entrega de encomendas, como medicamentos, supermercado

Fiz um “textão” e disse que, com toda a atuação do condomínio, certamente as pessoas estavam correndo mais riscos com quem não estava confirmado do que comigo, que passei por todos os procedimentos e agora estava isolada.

Tive medo, sim, da reação das pessoas, porém, revelar a minha identidade foi a melhor coisa que fiz. Veio uma onda gigante de amor, solidariedade, preocupação comigo, com meus filhos e marido. Todos oferecendo ajuda, orando por mim, elogiando meu posicionamento, me encorajando a passar por essa fase difícil.

Meus vizinhos me encheram de comidinhas maravilhosas! Muitos me mandavam mensagens todos os dias para saber como estava. Estou recebendo tanto carinho, tanto apoio! O clima mudou! Inverteu! Aquela que ninguém queria por perto agora é alvo de orações, pensamentos e ajuda efetiva!

O que será que mudou? Penso que quando personificamos, damos nome, tudo faz sentido. É muito difícil ter empatia por alguém que você não sabe quem é.

Quase ninguém pensou que poderia ser aquele vizinho querido, algum amigo, alguém que você gosta. Mas quando o infectado ganhou nome, ele ganhou o amor, respeito e o carinho de todos. Isso é viver em condomínio.  Eu preciso muito dos meus vizinhos. Muito!

O isolamento exige que o amor apareça! Que bom é morar em um lugar com pessoas tão preocupadas com o outro e com uma equipe de gestão tão comprometida com o nosso bem. Mais uma vez, obrigada, Taula!

(*) Giovanna ** é moradora de um condomínio-clube na cidade de São Paulo. Não revelamos seu sobrenome para preservar sua identidade.

via https://www.sindiconet.com.br/